ESCRAVIDÃO MODERNA E JORNALISMO

Tradução do texto “Como as reportagens da CNN sobre escravidão moderna se encaixam nos esforços para aumentar a cobertura internacional“, de Mallary Jean Tenore, para o Poynter, em 27 de março de 2012.

Antes de ir cobrir a escravidão na Mauritânia, John Sutter, da CNN, pensou que conseguiria se distanciar emocionalmente da estória. Porém, após ouvir os relatos de escravos libertos e donos de escravos, ele não pôde deixar de se emocionar.

“Normalmente é fácil se colocar no seu lugar de repórter, pelo menos enquanto se está tendo uma conversa, e se distanciar do conteúdo da entrevista”, Sutter disse por email. “Isso não foi possível com a maioria das entrevistas, tanto porque fiquei surpreso com o que as pessoas falavam, quanto porque algumas estórias eram muito horrendas e traumatizantes”.

A escrava liberta Moulkheir Mint Yarba, fotografada por Edythe McNamee.

Sutter e a fotografa Edythe McNamee passaram quase um ano na Mauritânia, um país do oeste africano em que 10 a 20 por cento da população ainda é escrava. A escravidão foi abolida apenas em 1981 e se tornou um crime em 2007. (Em uma entrevista por email, Sutter descreve desafios e recompensas ao cobrir essa estória).

O projeto em que estão envolvidos “Último Refúgio da Escravidão” (Slavery´s Last Stronghold) mostra como a CNN está tentando reforçar sua cobertura internacional e dar às pessoas um motivo para se importarem com a situação.

Escravidão é uma parte importante da cobertura internacional

“Último Refúgio da Escravidão” é parte do “Projeto pela Liberdade” (Freedom Project) da CNN, iniciado em março de 2011. Desde então, a emissora colocou no ar 250 reportagens sobre a escravidão moderna presente em 5 continentes.

“Nós decidimos que queríamos fazer a escravidão moderna uma especialidade para nós”, declarou Meredith Artley, vice-presidente e editora da CNN Digital. “Jornalismo de furo (o enterprise journalism) não é algo que associaríamos com a CNN há 15 anos, mas é o tipo de coisa que pretendemos fazer cada vez mais. Se não fizermos isso, quem o fará?”.

A CNN não é a primeira empresa jornalística a cobrir a escravidão na Mauritânia, mas produziu um dos maiores projetos sobre o assunto. “Último Refúgio da Escravidão” chega em um momento em que a maior parte das empresas jornalísticas têm cortado os recursos para a cobertura internacional e fechado seus escritórios no estrangeiro.

É difícil comparar os esforços internacionais da CNN com os de outras empresas, primeiramente porque ela tem um alcance imenso. A CNN Internacional é transmitida para todo o mundo e o site CNN.com tem por volta de 2,3 bi de visualizações em 2011. A porta-voz da CNN, Jenna DiMaria, não deixa claro quantos dessas visualizações são de fora do Estados Unidos, mas afirma que “uma grande parte de nosso tráfego vem dos EUA”.

A CNN também tem equipe para fazer uma cobertura internacional, apesar das dispensas no ano passado. (DiMaria disse que as dispensas mais recentes, da equipe de documentário da CNN, não interverão na cobertura internacional). Muitos empregados contribuem para a cobertura internacional da CNN.com, incluindo aqueles que normalmente não cobrem assuntos internacionais.

Jornalistas da CNN que cobrem estórias em zonas de perigo têm que passar por um treinamento em zonas de perigo, que é administrado por uma organização chamada AKE.

Sutter, que fez o treinamento com McNamee, confessa que apesar de ser especialista em cobertura internacional com foco na África, tem pouca experiência em reportagens internacionais. Ele cobre normalmente tecnologia e meio-ambiente. Ter a oportunidade de fazer algo fora de sua especialidade, diz ele, fortalece suas habilidades jornalísticas.

“Eu era pouco experiente no assunto quando comecei a pesquisar sobre ele há um ano, mas acho que essa inexperiência pode ser algo bom de algum modo”, diz Sutter. “Se você é novo em algo, você pode ver tudo com um novo olhar”.

Ele fez bastante apuração e teve muitas conversas com seu editor antes de partir para Mauritânia, onde a comunicação era difícil. Quando voltou, teve que arrumar tempo para escrever a estória enquanto cobria outras notícias locais.

“Algumas vezes eu alterno entre assuntos pesados e leves, enquanto estava escrevendo a matéria sobre a Mauritânia, por exemplo, voei para São Francisco a fim de cobrir o lançamento do novo iPad”, diz ele.

Evitando o “ambos os lados”

Parte do que faz “Último Refúgio da Escravidão” tão bom é que as fotos e os textos trambalham bem juntos, além da escrita ser forte.

Sutter inicia a reportagem com uma história pesada sobre Moulkheir Mint Yarba, uma escrava liberta cujo dono deixou seu bebê para morrer. Depois ele diz como o dono a estuprou. “Moulkheir não tinha opção a não ser aceitar essa tortura”, Sutter escreveu, “Ela se convenceu que seu dono sabia o que era melhor para ela – esse era o jeito que as coisas sempre foram, e poderiam ser para sempre assim”.

O texto de Sutter faz o leitor simpatizar com os ex-escravos que ele entrevista.

“Esse é um jornalismo que advoga por vários motivos. Nós não precisamos ser este observador inerte, desconectado, sem emoções – isso é escravidão moderna, pelo amor de deus!”, Artley prega. “Não é algo sobre o qual você precisa ser objetivo”.

A CCN não aborda todas suas coberturas desse modo. O professor da Universidade de Nova York Jay Rosen, por exemplo, recentemente ressaltou que para a campanha de 2012, a emissora utilizou um slogan para mostrar sua posição para o “ambos os lados”: “O único lado que escolhemos é o seu”.

O editor sênior da CNN Digital, Jan Winburn, que editou a reportagem de Sutter, o encorajou a colocar sua voz na estória. No decorrer do texto, ele usa “nós” enquanto descreve os desafios e dificuldades que ele e McNamee enfrentaram.

“Queríamos levar os leitores à viagem que fizemos. Nós já tivemos muita dificuldade em entrar na Mauritânia, imagine nossos leitores então, nunca poderão estar lá”, disse Winburn, que ressaltou que o projeto apresenta vídeos, fotografia, texto e outras ferramentas interativas. “Tudo isso conecta as pessoas a uma estória que está tão longe delas, tão longínqua, tão difícil de compreender. A questão é trazer isso pra perto de nós”.

Aumentando o interesse na cobertura internacional

Desde que foi publicado no domingo, “Último Refúgio da Escravidão” gerou mais de 2 milhões de visualizações e figurou entre as reportagens mais populares da CNN.com.

Reportagens internacionais frequentemente estão entre o conteúdo com maior popularidade da CCN.com, em parte porque a CNN cobre muitas notícias internacionais, em parte porque as pessoas estão verdadeiramente interessadas nesse assunto, Artley conclui.

“Nós investimos na cobertura internacional e fazemos isso porque acreditamos que as pessoas se importam com esse tipo de cobertura”, ela disse por telefone. “Mas eu não acho que, como jornalistas, sempre conseguimos conectá-las com as estórias tão bem quanto poderíamos”.

O “Projeto Pela Excelência em Jornalismo” descobriu que a cobertura internacional cresceu em 2011. Porém, um aumento na cobertura não significa necessariamente aumento no interesse. Atualmente, alguns vêm questionando a popularidade das notícias internacionais, dizendo que só têm apelo para uma pequena elite.

O jornalista do New York Times, Nicholas Kristof, me disse que após anos trabalhando com notícias internacionais, não sabe se as pessoas estão interessadas em assuntos como escravidão moderna.

“Em geral, somos melhores em cobrir o que acontece em um dia em particular. Somos fracos em cobrir o que acontece sempre, todo dia, porque nunca é algo preciso – e esse é o universo da saúde pública, pobreza, e sim, formas modernas de escravidão”, declara Kristof, que elogiou o projeto da CNN.

“Só não sei o quão interessada está a audiência. Eu realmente acho que os americanos estão mais preocupados com assuntos internos do que com estórias de fora sobre Iraque ou tráfico sexual na Índia. Mas estórias sobre tráfico humano têm grande apelo e não são difíceis de encontrar”.

Sutter tentou atrair o interesse para sua reportagem incluindo temas universais que ele pode relacionar: maternidade, independência e o desejo de ter uma voz e ser ouvido.

“O que acontece na África importa porque está acontecendo com pessoas que dividem o mesmo planeta conosco”, Sutter diz. “Alguém me disse uma vez que, quando você viaja pela primeira vez para outro país bem diferente do seu, você nota todas as diferenças; mas se você fica por um tempo, você começa a notar apenas as similaridades. Eu gosto disso, e é a pura verdade. Nossas dificuldades são entrelaçadas e acho que tomamos decisões mais inteligentes como seres humanos e como nação se entendermos melhor essas conexões”.

Clique na imagem para ler a reportagem original “Último Refúgio da Escravidão” (em inglês).

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Sobre Thanius Scoralick Sarchis

Jornalista
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Uma resposta para ESCRAVIDÃO MODERNA E JORNALISMO

  1. Maristela Meireles disse:

    “quando você viaja pela primeira vez para outro país bem diferente do seu, você nota todas as diferenças; mas se você fica por um tempo, você começa a notar apenas as similaridades. Eu gosto disso, e é a pura verdade. Nossas dificuldades são entrelaçadas e acho que tomamos decisões mais inteligentes como seres humanos e como nação se entendermos melhor essas conexões”
    Genial!!!
    :-DDDD

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